Guia dos Implantes Cocleares Dr. Luciano Moreira · CRM/RJ 65192-3
Decisão por cenário

Situações especiais

A anatomia da cóclea — não a marca — costuma ditar a melhor escolha. Para cada situação clínica, a recomendação preferencial, a alternativa e o porquê. Material de apoio à decisão, sempre individualizada com o cirurgião.

Como ler esta página: tendências, não regras

As recomendações abaixo sintetizam a literatura disponível sobre cada cenário — em sua maior parte série de casos e revisão narrativa (evidência de nível 4), não ensaios clínicos randomizados. Elas apontam uma tendência: não são a única conduta correta, nem necessariamente a melhor opção para um caso específico. A escolha final depende da anatomia individual, do quadro clínico completo e da experiência da equipe — e um cirurgião pode, com bons fundamentos, decidir de outra forma. Este é um material de apoio à decisão; quem decide é o cirurgião, junto do seu paciente.

Cada cartão traz um selo de confiança (alta, média ou baixa) que reflete a força da evidência por trás daquela tendência. Os dados foram conferidos contra fontes primárias da literatura (revisão de jun/2026); onde a evidência é fraca ou divergente, o texto diz isso abertamente, em vez de simular um consenso que não existe.

Cóclea totalmente ossificada (pós-meningite)

Confiança média

Cóclea sem lúmen detectável (TC mostra osso; RM perde sinal em CISS/FIESTA na rampa). Objetivo: número máximo de contatos ativos por estimulação distribuída.

Recomendação primária
Em cóclea sem lúmen, distribuir o máximo de contatos ativos por uma de duas rotas: (a) eletrodo de contatos compactos (espaçamento curto entre contatos) quando há um segmento pérvio, aproveitando o trecho disponível; ou (b) eletrodo reto fino de parede lateral após broqueamento (drill-out) da espira basal
Alternativa
Dummy rígido de dilatação pode abrir oclusão fibrótica antes do feixe de eletrodos flexível. Se a rampa timpânica está obstruída mas a rampa vestibular permanece pérvia, a abordagem por scala vestibuli permite inserção completa por via alternativa. A abordagem de feixe duplo (dupla cocleostomia, inserindo dois feixes em rampas distintas) é recurso histórico de disponibilidade comercial atualmente limitada — considerar apenas se efetivamente disponível, não como opção de linha corrente
Fundamento: Labirintite ossificante após meningite preenche a rampa timpânica (começa na basal). Janela cirúrgica é curta — implantar o quanto antes. Em série de revisão pós-meningite, a estratégia de feixe duplo elevou eletrodos ativos de 0–5 (pré) para 8–12 (pós), com ganho de fala; o objetivo (maximizar contatos ativos) permanece, hoje perseguido com contatos compactos no segmento pérvio ou reto fino após drill-out. Estadiar a obliteração na imagem (focal, restrita à janela redonda; basal ascendente; ou difusa, nas espiras basal e média) organiza a tática cirúrgica e a expectativa. Desfecho depende do grau de ossificação, duração da surdez, profundidade de inserção e sequela neurológica.

Ossificação parcial / basal

Confiança média

Ossificação confinada à espira basal, com ápice e voltas médias ainda pérvios.

Recomendação primária
Eletrodo reto fino de parede lateral, com broqueamento limitado à espira basal e inserção do feixe de eletrodos no segmento pérvio remanescente
Alternativa
Se o reto não progride por fibrose, um dummy rígido de dilatação (sonda sem eletrônica) abre o trajeto antes do feixe de eletrodos flexível. O eletrodo perimodiolar NÃO deve ser usado para 'forçar' a passagem: contra resistência ele dobra a ponta (tip fold-over) ou translóca de rampa, em vez de penetrar o tecido
Fundamento: Drill-out restrito à basal preserva o restante da cóclea; o eletrodo fino passa após remover osso/fibrose. Planejar com TC + RM, pois a RM mostra fibrose (sinal perdido) antes de virar osso visível na TC, o que muda a estratégia de inserção. Atenção a um erro mecânico comum: o feixe de eletrodos pré-curvado não 'perfura' fibrose; a abertura de um trajeto obstruído é feita por dilatação prévia (dummy rígido), não pela rigidez de um perimodiolar.

Otosclerose avançada (risco de estimulação do nervo facial / FNS)

Confiança média

Cóclea de forma normal, mas com risco elétrico de estimulação do facial pela otosclerose coclear/retrofenestral. A gravidade da doença, não o formato do eletrodo, é o principal preditor de estimulação facial.

Recomendação primária
Não há feixe de eletrodos comprovadamente superior na otosclerose. A conduta tradicional prefere o eletrodo perimodiolar (pré-curvado) ou mid-scala pela plausibilidade de afastar a corrente da parede lateral e do canal de Falópio, mas a evidência moderna não confirma essa vantagem. A escolha é individualizada e guiada por imagem (TC / planejamento por imagem); o eletrodo reto fino de parede lateral é alternativa válida
Alternativa
Qualquer que seja o feixe de eletrodos, a estimulação do facial é majoritariamente manejável por reprogramação (pulso trifásico / pseudo-monofásico, alargamento de pulso, desativação de eletrodos), que controla a FNS em cerca de 85,5% dos casos. Ressalva honesta: cerca de 14,5% precisam de cirurgia de resgate, e desativar muitos eletrodos pode piorar a percepção de fala. A FNS raramente impede o implante, mas casos refratários existem
Fundamento: A otosclerose retrofenestral cria osso desmineralizado de baixa impedância, por onde a corrente vaza em direção ao canal de Falópio e estimula o facial (a otosclerose multiplica o risco de FNS, OR ≈13 vs cócleas normais). A vantagem do perimodiolar aqui é histórica e está em disputa. Os números antigos a favor não vêm de um estudo recente: 43% vs 0% é de Flook 2011 (série de casos com eletrodos retos rígidos de gerações passadas, nível 4) e 40% vs 0% é de Seyyedi 2013 (histopatologia com apenas n=3 no grupo perimodiolar), ambos sem poder populacional. As taxas 15,7% vs 4,4% (Van Horn 2020) são da população geral; só na otosclerose o risco sobe para ≈21–28%, independente do formato. Coortes modernas com eletrodos retos finos (Tuset 2022, 91 orelhas de otosclerose avançada, metade de cada feixe de eletrodos) não acharam diferença por formato: o preditor dominante é a GRAVIDADE da otosclerose, não o desenho do feixe de eletrodos. Por isso a decisão é individualizada por imagem; pesquisar deiscência cócleo-facial na TC (preditor forte de FNS, OR ≈9,9) pesa mais que a escolha do formato. Variantes cavitárias (otospongiose lítica) dispersam ainda mais a corrente e podem mascarar o trajeto seguro do eletrodo à imagem (lesões líticas/radioluzentes, distintas da ossificação densa); o planejamento 3D por TC (ex.: OTOPLAN) ajuda a dimensionar o feixe de eletrodos e a antecipar drill-out do giro basal em casos avançados.

Mondini / Partição Incompleta tipo II (IP-II), tipicamente com EVA

Confiança média

Modíolo apical deficiente com cóclea quase completa; a IP-II concentra o melhor prognóstico entre as partições incompletas.

Recomendação primária
Eletrodo reto de parede lateral, atraumático. Inserção completa geralmente possível
Alternativa
Eletrodo reto fino de parede lateral de comprimento curto (≈21 mm de faixa ativa) se a cóclea for menor que o esperado; preparar campo para gusher (EVA frequente)
Fundamento: IP-II (Mondini clássico: ≈1,5 volta, modíolo apical deficiente) tem modíolo parcial e cóclea quase formada → comporta feixe de eletrodos padrão; o reto evita má-posição. É o melhor prognóstico do grupo de partições incompletas. Quando há EVA associada, ler também o cenário EVA (gusher manejável com vedação, sem piora de desfecho).

Partição Incompleta tipo I (IP-I)

Confiança média

Cóclea cística com modíolo gravemente deficiente; risco de gusher e de fold-over/má-posição da ponta.

Recomendação primária
Eletrodo reto curto (≈20–25 mm) com recurso de vedação anti-gusher — eletrodo com selo anti-gusher (stopper cônico tipo rolha que veda a cocleostomia), ou feixe de eletrodos reto com stopper
Alternativa
Eletrodo full-band (contatos rodeando o feixe de eletrodos) quando o modíolo for muito deficiente, para melhorar a estimulação na ausência de eixo central
Fundamento: IP-I é cístico, com modíolo gravemente deficiente, alto risco de gusher e de fold-over/má-posição (a ponta pode dobrar ou o feixe de eletrodos desviar para o CAI). Feixe de eletrodos curto reduz super-inserção; o selo veda a cocleostomia se houver gusher. Confirmar posição com imagem/teste intra-op.

Partição Incompleta tipo III (IP-III, ligada ao X / DFNX2 / POU3F4 — alto risco de gusher)

Confiança alta

Ausência de modíolo e lâmina espiral, CAI em balão, comunicação direta CAI–cóclea. O caso de maior risco cirúrgico (gusher + má-posição no CAI).

Recomendação primária
Eletrodo curto (≈20 mm), full-band (contatos nos dois lados pela ausência de modíolo), com selo anti-gusher (stopper cônico que veda a cocleostomia) — preferencial
Alternativa
Eletrodo reto curto com stopper + vedação reforçada com fáscia/periósteo; NÃO super-inserir (evita entrada no CAI)
Fundamento: IP-III tem modíolo e lâmina espiral ausentes, CAI dilatado em balão e comunicação direta CAI–cóclea → gusher é praticamente universal (≈100%); o feixe de eletrodos entra fácil no CAI em vez da cóclea. Full-band porque a corrente precisa de ambos os lados sem modíolo. O selo evita fístula/meningite. ERRO A EVITAR: não fazer estapedectomia diante de gap aéreo-ósseo em homem com história familiar ligada ao X — abrir o estribo desencadeia gusher e não resolve a surdez (mista/neural). Reconhecer IP-III no pré-op é o que previne esse erro. Counseling: desfechos audiológicos um pouco inferiores à cóclea normal, mas IC segue eficaz.

Cavidade comum

Confiança média

Cavidade esférica única sem modíolo; neurônios na periferia exigem feixe de eletrodos que cubra a parede, não que abrace um eixo inexistente.

Recomendação primária
Eletrodo reto/anelado em formato de alça cobrindo a circunferência da cavidade, comprimento custom conforme o diâmetro da cavidade. NUNCA perimodiolar
Alternativa
Eletrodo com selo anti-gusher quando há gusher esperado (distingue de IP-I no intra-op); posicionamento sob controle endoscópico
Fundamento: Cóclea e vestíbulo formam uma única cavidade esférica SEM modíolo central; os neurônios distribuem-se na periferia. O eletrodo precisa varrer a parede — perimodiolar é contraindicado porque enrolaria no centro, longe dos neurônios. Feixes de eletrodos custom + endoscopia dão vantagem; a maioria das crianças obtém benefício auditivo significativo.

Hipoplasia coclear (cóclea pequena — tipos I–IV de Sennaroğlu)

Confiança média

Cóclea de dimensões muito reduzidas, com modíolo pequeno presente. Distinta da cavidade comum e das partições incompletas; exige os eletrodos mais curtos do mercado.

Recomendação primária
Eletrodo reto fino de parede lateral muito curto (da ordem de 12–15 mm, dos mais curtos do mercado), casado ao comprimento reduzido do ducto coclear medido na imagem. Forçar um feixe de eletrodos de comprimento padrão colapsa a estrutura ou translóca de rampa
Alternativa
Nos subtipos com modíolo mais formado, um eletrodo curto pré-curvado pode ser viável; a medida do lúmen por TC/RM oblíqua define o grau (CH-I a CH-IV) e a prótese. Selo anti-gusher se houver comunicação com o CAI
Fundamento: A hipoplasia coclear reúne cócleas de volume muito reduzido (classificação CH-I a CH-IV de Sennaroğlu, da gema rudimentar à cóclea de forma quase normal porém pequena), com modíolo presente mas diminuto — distinta da cavidade comum e das partições incompletas. O ducto coclear pode ser bem menor que os ≈28–36 mm normais, então o feixe de eletrodos tem de ser proporcionalmente curto; feixes de eletrodos convencionais não cabem e traumatizam a estrutura basilar microscópica. A medida do lúmen por imagem dita o grau e a escolha do eletrodo. Desfechos variáveis, dependentes da população neural presente; counseling honesto.

Aqueduto vestibular alargado (EVA) isolado

Confiança alta

Aqueduto vestibular > 1,5 mm, frequentemente associado a IP-II. Gusher manejável; feixe de eletrodos escolhido pela anatomia coclear, não pela EVA em si.

Recomendação primária
Eletrodo padrão, escolhido pela anatomia coclear associada. Preparar campo para gusher e ter material de vedação (músculo + cola de fibrina)
Alternativa
Se houver IP-II/Mondini concomitante (frequente), seguir o cenário IP-II. EVA isolada não muda a característica do eletrodo
Fundamento: Gusher/vazamento de perilinfa é frequente em EVA mas manejável com vedação, e NÃO piora percepção de fala/linguagem; inserção completa é a regra (inserção parcial em ≈6 de 853 numa revisão sistemática). Desfechos comparáveis a crianças sem malformação. A decisão de feixe de eletrodos é ditada pela malformação coclear concomitante, se houver. (Nota de verificação: percentuais específicos de gusher por orelha foram retirados por não terem lastro na fonte primária — o que se sustenta é 'frequente e manejável, sem prejuízo de desfecho'.)

Hipoplasia / aplasia do nervo coclear (deficiência do nervo coclear, CND)

Confiança média

Nervo coclear hipoplásico ou ausente na RM. Prognóstico depende de fibras presentes; a escolha de feixe de eletrodos é secundária.

Recomendação primária
Eletrodo padrão atraumático — a decisão aqui é de CANDIDATURA e expectativa, não de feixe de eletrodos exótico. RM de alta resolução (sagital oblíqua do CAI) é obrigatória para contar fibras
Alternativa
Em aplasia bilateral confirmada, discutir implante auditivo de tronco encefálico (ABI) como alternativa/complemento
Fundamento: A variável determinante é quantas fibras nervosas existem, não o desenho do eletrodo. Presença do nervo na RM e ausência de síndrome associada predizem melhor desfecho; hipoplásico > aplásico em percepção de fala. Pacientes com nervo aplásico ou inserção parcial podem ainda obter alguma discriminação, mas resultados são muito variáveis. CONTRARREGRA da Regra de Ouro SONORA: aqui não se promete cura — counseling honesto sobre incerteza é parte da indicação.

Risco de gusher (genérico — IP-I, IP-III, ligada ao X / POU3F4, cavidade comum)

Confiança alta

Qualquer cóclea com comunicação CAI–cóclea que produza jato de LCR à abertura. Prioridade: vedação confiável da cocleostomia.

Recomendação primária
Eletrodo com selo anti-gusher (stopper cônico tipo rolha desenhado para vedar a cocleostomia, em vez do anel de silicone padrão), disponível em comprimentos curto (≈14 mm de faixa ativa) e padrão (≈19 mm de faixa ativa). Reforçar com fáscia/periósteo
Alternativa
Qualquer eletrodo reto com vedação cirúrgica robusta quando o selo anti-gusher estiver indisponível; ter material de vedação em campo
Fundamento: Comunicação anômala CAI–cóclea (lâmina cribriforme/modíolo ausentes) → jato de LCR ao abrir a cóclea e risco de migração do feixe de eletrodos para o CAI. Dados do eletrodo com selo anti-gusher (177 implantes, 36 malformados): gusher em 55,6% dos malformados, TODOS resolvidos; ZERO vazamento pós-op ou meningite em 36 meses de seguimento médio; em 11 inserções incompletas, fáscia/periósteo + stopper vedaram. Versão padrão = 24 mm físicos / faixa ativa 18,7 mm; versão curta = faixa ativa 14,3 mm. Arquitetura de 12 canais (a contagem '24' refere-se a contatos físicos).

Necessidade de RM frequente (vigilância de tumor, doença neurológica, schwannoma contralateral)

Confiança alta

Paciente que previsivelmente fará RM seriada. Decisão é logística (artefato na região de interesse, garantia, lado de implantação), não de segurança entre sistemas de geração atual.

Recomendação primária
Implante de geração atual com ímã rotacional / auto-alinhável (os três fabricantes oferecem), que faz RM 1,5 T e 3,0 T sem remoção do ímã e sem bandagem. A dispensa de bandagem vale para esse tipo de ímã; implantes de ímã fixo, ainda em uso na base instalada, podem exigir bandagem/tala mesmo a 1,5 T
Alternativa
Se o alvo for o encéfalo do lado implantado, preferir realizar a RM em 1,5 T (artefato menor) e usar sequências de redução de artefato metálico (MARS/SEMAC/VAT); em caso extremo, remoção cirúrgica eletiva do ímã (por qualidade de imagem, não por segurança)
Fundamento: RM 3,0 T deixou de ser fator de diferenciação entre os sistemas atuais — é commodity. A capacidade de SEGURANÇA é equivalente; a diferença prática é artefato (vazio de sinal de 5–15 cm que pode obscurecer lobo temporal/fossa posterior/APC/hipocampo ipsilaterais — limite FÍSICO, igual em todos) e política de garantia de RM. Estruturas contralaterais e DWI/EPI: DWI é não-diagnóstica com QUALQUER implante coclear. ATENÇÃO: dispositivos de geração anterior podem ter teto de 1,5 T — se 3,0 T é requisito, confirmar a geração do implante.

Preservação de audição / EAS (estimulação elétrico-acústica)

Confiança alta

Candidato com audição residual em graves preservável. Objetivo: combinar amplificação acústica (apical) e estímulo elétrico (basal) com trauma intracoclear mínimo.

Recomendação primária
Sistema com estimulação elétrico-acústica (EAS) integrada, sobre feixe de eletrodos reto fino de parede lateral (faixa ativa ≈15–21 mm; ≈23 mm em casos selecionados), via janela redonda, inserção lenta (soft surgery). O sistema EAS dedicado combina componente acústico (até 48 dB nos graves) e elétrico no mesmo processador
Alternativa
IC convencional com intenção de preservar: eletrodo reto fino de parede lateral — válido para preservação, sem o sistema EAS integrado. Recursos que aumentam a chance de preservar: monitorização por eletrococleografia (ECoG) intraoperatória, que guia a inserção em tempo real, e eletrodos eluidores de dexametasona (em validação clínica), que reduzem a resposta inflamatória/fibrótica intracoclear
Fundamento: Para preservar audição residual em graves (perda em rampa descendente), minimizar o trauma intracoclear com eletrodo reto fino e flexível de parede lateral (ponta basal ≈0,6–0,8 mm, afinando para ≈0,3–0,5 mm conforme o modelo), inserido pela janela redonda com técnica lenta. Preservação documentada: feixe de eletrodos reto fino de ≈23 mm de faixa ativa preservou audição em 2 casos completos + 4 parciais de 7, aos 12 meses (Calvino 2024, n=7 — prova de conceito; coortes maiores dão preservação combinada de 70–94%). Em crianças, o índice S do grupo HEARRING (proporção MÉDIA do limiar audiométrico retido pelo grupo, e não percentual de pacientes que preservaram) foi ≈73% na ativação, caindo para ≈60–67% entre 12 e 24 meses — ou seja, perda gradual de parte da audição residual ao longo do tempo. Se a audição residual se perder, o paciente migra para uso só elétrico no mesmo implante (vantagem da plataforma EAS).

Surdez unilateral (SSD) / perda assimétrica

Confiança alta

Orelha surda profunda com contralateral normal/quase normal. Benefício (zumbido, localização, fala no ruído) é robusto; a escolha de feixe de eletrodos específico é secundária.

Recomendação primária
Eletrodo padrão atraumático. A escolha é de CANDIDATURA, tempo de surdez e programação — não de feixe de eletrodos exótico. Preservar a cóclea importa para a integração binaural/bimodal
Alternativa
Programação para reduzir descasamento interaural de frequência/intensidade; quanto mais curto o tempo de surdez, melhor a plasticidade
Fundamento: Benefício vem de zumbido (redução significativa em 21/21 estudos, mantida ≥5 anos), localização sonora (24/27 estudos), fala no ruído (34/38) e qualidade de vida (21/22) — não de um feixe de eletrodos diferenciado. NUANCE regulatória (verificada): rótulos FDA mais antigos exigiam ≥90 dB HL na orelha a implantar; o critério unificado >80 dB / ≤30 dB contralateral / monossílabos ≤5% é o usado em diretrizes/literatura e corresponde aos rótulos mais recentes. No Brasil, a legislação (em torno da Lei 14.768/2023 e do Estatuto da Pessoa com Deficiência) passou a reconhecer a surdez em uma orelha como deficiência; o acesso ao implante por SUS e por planos, porém, ainda costuma exigir indicação bem documentada e, não raro, via judicial.

Cóclea de dimensão atípica (escolha de comprimento do eletrodo)

Confiança alta

Cóclea fora da faixa média (muito longa ou muito curta) à TC. Objetivo: cobertura tonotópica completa sem super- ou sub-inserção.

Recomendação primária
Seleção por comprimento: casar o comprimento do feixe de eletrodos ao comprimento do ducto coclear (CDL), medido na TC. Privilegiar eletrodos de parede lateral com maior granularidade de comprimento (faixa ativa ≈15–29 mm) — vantagem quando a cóclea é atípica e se quer inserção completa exata
Alternativa
Cóclea longa (CDL alto) → eletrodo reto fino de parede lateral longo (faixa ativa até ≈28,6 mm) ou a linha clássica reta. Cóclea curta (CDL baixo, criança/malformação) → eletrodo reto de parede lateral de inserção curta (≈20 mm)
Fundamento: Em cócleas normais o ducto coclear (CDL) varia ≈28–36 mm (média ≈35 mm); valores próximos de 25 mm já sugerem cóclea displásica/hipoplásica, não a faixa normal. Cobertura completa sem trauma exige casar o comprimento do feixe de eletrodos ao CDL medido na TC (planejamento por imagem / software tipo OTOPLAN). Comprimentos de parede lateral por faixa ativa de estimulação: ≈15,4 mm (inserção curta) / ≈20,9 mm / ≈23,1 mm / ≈26,4 mm / ≈28,6 mm. Atenção à distinção: 'faixa ativa' (spec sheet) ≠ 'comprimento físico total' (o número do nome do modelo) — ambos corretos, medem coisas diferentes. Inserção mais profunda (estímulo além de 1,5 volta) associou-se a melhor percepção de fala em ≈65% dos estudos de uma revisão sistemática (Breitsprecher 2023), o melhor nível de evidência sobre o tema.

Reimplante / falha de dispositivo (revisão)

Confiança média

Falha de dispositivo ou indicação de revisão. Prioridade: minimizar nova fibrose e aproveitar o trajeto existente; se a cóclea cicatrizou, aplicar a lógica de cóclea ossificada.

Recomendação primária
Idealmente mesma plataforma / mesmo trajeto, trocando feixe de eletrodos antigo e novo na MESMA cirurgia (reduz risco de nova fibrose preencher a rampa). O feixe de eletrodos de mesmo tipo tende a seguir o túnel existente
Alternativa
Se a cóclea fibrosou/ossificou no intervalo, tratar como ossificada (eletrodo reto fino após drill-out, ou contatos compactos no segmento pérvio). O tecido cicatricial preexistente em parte protege a cóclea na reinserção
Fundamento: Trocar no mesmo ato evita que nova fibrose ocupe a rampa; métricas de posicionamento variam (o feixe de eletrodos pode subir ou descer). IMPLICAÇÃO para a escolha INICIAL: ao implantar pela primeira vez, já preferir feixe de eletrodos que poupe estrutura, pensando no reimplante futuro. A memória interna não-volátil (NVM) de plataformas atuais guarda os MAPs no implante e facilita continuidade na troca de PROCESSADOR, mas não substitui reavaliação de mapeamento em reimplante do componente interno.

Criança pequena / lactente

Confiança alta

Lactente/criança pequena com cóclea de tamanho já adulto. Decisão central é a implantação precoce + comprimento adequado ao comprimento do ducto coclear (CDL), não um feixe de eletrodos encurtado.

Recomendação primária
Feixe de eletrodos de comprimento completo apropriado ao CDL da criança (a cóclea já tem tamanho adulto ao nascer; inserção profunda favorece percepção de fala). Implantação precoce é a alavanca principal (plasticidade)
Alternativa
Eletrodo reto fino de parede lateral quando se quer poupar estrutura (audição residual ou candidato a futuras terapias). Em criança com malformação/CND — frequente nessa população — seguir os cenários específicos
Fundamento: MITO A DERRUBAR: a cóclea atinge o tamanho adulto ainda intra-útero e NÃO cresce após o nascimento — não há vantagem em feixe de eletrodos curto 'para deixar espaço de crescimento'. O que cresce é a distância mastóidea/extracoclear, resolvida com alça de reserva do fio, não com feixe de eletrodos menor. ≈65% dos estudos: maior profundidade de inserção → melhor percepção de fala (estimular além de 1,5 volta). A idade mínima de implante caiu: o piso de 9 meses já vinha de rótulos anteriores (2020) e rótulos recentes chegaram a 7 meses (aprovação de 2025); o implante bilateral simultâneo passou a ser preferido ao sequencial nessa faixa, por melhor integração binaural — salvo quando comorbidade anestésica ou a avaliação vestibular recomendam escalonar. Alinhado à posição clínica SONORA sobre janela temporal/plasticidade.
Como ler este quadro

Quadro de Indicação de Implante Coclear por Cenário Clínico — SONORA (jun/2026)

Princípio reitor: a escolha do eletrodo é ditada pela anatomia coclear (TC + RM de ossos temporais, idealmente com planejamento cirúrgico por imagem) — a anatomia manda, não a marca. No Brasil, nem o paciente nem o médico escolhem marca/modelo (lógica OPME e Resolução CFM 2.318/2022): o cirurgião especifica a característica do eletrodo, e o sistema de fornecimento mapeia essa característica em um modelo disponível. Por isso este quadro fala em características; a correspondência característica→modelo está nas páginas de modelos e no comparador de eletrodos do guia.

Nível de evidência global: a literatura sobre eletrodo em anomalias é majoritariamente série de casos e revisão narrativa (nível 4), não ensaio randomizado. As recomendações abaixo refletem o consenso cirúrgico atual; a confiança está marcada caso a caso.

Características disponíveis (jun/2026): eletrodo perimodiolar (pré-curvado, que abraça o modíolo); eletrodo mid-scala (pré-curvado de posição média, sem encostar no modíolo); eletrodo reto fino de parede lateral, em múltiplos comprimentos (faixa ativa ≈15–29 mm), incluindo versões de inserção curta (≈20 mm) e a linha clássica reta; eletrodo de contatos compactos (espaçamento curto entre contatos); eletrodo com selo anti-gusher (stopper cônico que veda a cocleostomia); e sistema com estimulação elétrico-acústica (EAS) integrada sobre feixe de eletrodos reto fino de parede lateral. A abordagem de feixe duplo (dupla cocleostomia, com dois feixes inseridos em rampas distintas) é hoje recurso histórico, de disponibilidade comercial limitada — não é característica de linha corrente.

Pontos transversais já verificados: (1) RM 3,0 T sem remoção de ímã é commodity entre os implantes de geração atual — não usar como critério de desempate clínico, só logístico (artefato/garantia); todos sofrem o mesmo artefato físico ipsilateral. (2) FNS, gusher e ossificação raramente contraindicam o implante — são problemas de escolha de feixe de eletrodos + técnica + fitting, quase sempre com solução documentada (a reprogramação — redução de níveis, desativação de eletrodos culpados, alargamento do pulso e ondas trifásica/pseudo-monofásica — controla a FNS em ≈85,5% dos casos; uma minoria refratária, em torno de 14,5%, pode exigir cirurgia de resgate). (3) Confiabilidade (CSP ≈99,8% em 5 anos) está empatada entre os sistemas atuais — não é o fiel da balança. (4) Via de acesso: a janela redonda é preferida (menos trauma) sobre a cocleostomia; a visibilidade da janela (classificação St. Thomas) ajuda a decidir quando a cocleostomia é necessária. (5) Em malformações, o trajeto do nervo facial é anômalo em ≈11% dos casos (séries pediátricas) — a monitorização intraoperatória do facial (NIM) é prudente. (6) Planejamento por imagem em 3D (medida do CDL / valor-A, ex.: OTOPLAN) ajuda a dimensionar o feixe de eletrodos em cócleas atípicas, malformadas ou ossificadas.

Observação editorial: os cenários abaixo descrevem tendências de escolha cirúrgica, não regras fixas — cada caso é decidido pela anatomia e pelo julgamento da equipe. Para características de baixo volume (selo anti-gusher, contatos compactos, feixe duplo custom), a existência na linha mundial não garante o estoque local caso a caso; a disponibilidade efetiva é confirmada com o fornecimento OPME no momento da indicação.

Quadro de apoio à decisão clínica. Não substitui a avaliação individual, o planejamento por imagem (TC e RM de ossos temporais) nem o julgamento do cirurgião.

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